quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

o próximo passo

Mesmo perdendo milhares de fiéis a cada ano, seja em virtude das denúncias de pedofilia, seja por combater métodos anticoncepcionais, repudiar relações homo-afetivas ou ainda defender a abstinência sexual como solução para diversos problemas sociais nas mais diversas escalas, a Igreja Católica e o Estado do Vaticano seguem firmes, sem perspectiva de extinção nos próximos século, já que são detentores de um patrimônio parcial entre Roma e Nova Iorque de mais de 4 bilhões de dólares apenas em imóveis. Imagine-se a parte mais valiosa.

Não se trata de um fenômeno inexplicável ou de uma onda emanada apenas da fé continuada por tantas décadas. Trata-se de uma entidade planejada para durar para sempre. E sendo assim, as decisões que dela emanam, dirigidas à própria estrutura e ao comportamento humano de seus devotos, são decisões tomadas para durarem no mínimo 1000 anos, sendo averiguadas aproximadamente a cada 100 anos. Um parâmetro propositalmente fora da percepção cotidiana. E também por isso, um tanto eficaz.

Essa foi a lição que alguns Estados aprenderam com a megacorporação católica, a qual também estudou povos mais antigos e sua durabilidade intelectual. Na cisão de interesses, o Calvinismo investiu na propagação da prosperidade, rebaixando a pobreza aos rejeitados. Esqueceu-se dos momentos ruis da humanidade, em que tudo pode ficar escasso para todos. Já os mais experientes sabem que a miséria sempre estará presente dentro das comunidades humanas. E ninguém paga tão pontualmente quanto o miserável.

Tratado do Reno. Plano Marshall. Tratado de Maastricht. Cada um na sua proporção procurou e procura seguir postulados bem mais antigos. Aproximar inimigos e aprender com eles.

Foi-se o tempo da boa batalha, em termos de honra e lealdade. Isso era para atenienses e espartanos. Gregos e persas. Mais tarde para romanos e normandos ou celtas. Parece que nada foi assimilado a respeito de Saladino e outros conquistadores de igual qualidade.

Hoje em dia Iraque, Afeganistão, Paquistão, Síria, Líbia. Kosovo, Uganda, Congo, Angola, Sudão, Serra Leoa e tantos outros. São fragmentos ainda menores no que tange ao poder monetário ou estratégico diante dos senhorios, inclusive os novos. Logo passarão e ninguém vai reclamar muito ou por longo tempo. Não são considerados Estados em guerra por suas ideologias. São instantâneos mambembes de um libreto menor. No máximo valerão prêmios de literatura ou jornalismo. Em termos locais, o norte-nordeste comandado por jagunços subdiplomados completam o cenário nacional.

Enquanto os instantes ocorrem globalmente, os movimentos fundamentados milenarmente vão se consolidando furtivos ao fundo das manchetes. É esse o motivo pelo qual os Estados Unidos da América do Norte se tornaram a principal ou única potência desde a 2ª Guerra Mundial e, hoje, a China implodiu o domínio ianque e ficará por um bom tempo à frente da economia mundial – trata-se de um povo cuja cultura data de 5 mil anos antes de Cristo, e por mais que tenham errado em seus experimentos sociais, seria ingenuidade achar que os 70 anos reclusos no século XX, dependendo apenas deles mesmos não têm nenhuma conexão com o poder que exercem agora e por um bom tempo exercerão.

Nenhum Estado se adaptou tão bem às decisões milenares quanto a China. As ditaduras radicais serviram para abafar ambições pessoais da classe média e seus pensadores impondo à nação o sacrifício imediato em nome dos herdeiros por séculos. E as receitas provenientes dos brinquedos e falsificações tão desejados e adquiridos no ocidente, estão pagando os cursos de especialização científica e tecnológica dos chineses mais novos nas melhores escolas e centros formadores a mais de 20 anos. Se faltava resposta à pergunta “o que ganha uma nação em se unir mais cedo e observar o resto do mundo, aprendendo com os demais sem se expor organicamente?”, não falta mais.

Quando penso em termos de Brasil e percebo que as decisões ministeriais dependem do grau de afeto ou desafeto dos envolvidos, que o critério técnico inexiste porque todos querem ganhar para si e agora, que os legisladores formaram seus feudos e neles reinam soberanos, vejo que estaremos em breve fora do grupo denominado BRICS, que levaremos mais tempo do que as demais nações emergentes para perceber o que significa desejar “viver para sempre” como país.

Sem me deter na evidente depressão a que me levam tais conclusões, penso no que pode ser o próximo passo dos líderes globais. Não será algo novo, imprevisível. Será algo sedimentado, reconhecível. Expansão por miscigenação? Expansão por replicação do modelo em menor escala? É possível observar pequenas Américas do Norte em todo o mundo depois de 1946. Na Mongólia alguns pastores falam um pouco de inglês – e não é o britânico. O mundo fala inglês e está aprendendo mandarim. Teremos pequenas Chinas? Em tempo de populismo é bem mais fácil instituí-las. E como a distribuição de renda não se efetivou eficazmente em nenhuma economia, o discurso é aderente ao extremo.

Qual será o próximo passo dado e já projetado para esse milênio e se houver, o posterior? Por quem será dado? Deverá ser revestido da melhor embalagem, de uma campanha contagiante e apelativa, será quase uma chantagem emocional escancarada – mas quase – pois essa abordagem e toda sua plenitude aguarda os resultados dos esforços governamentais emergentes voltados a garantir o máximo da mediocridade na Educação dos futuros bonecos cidadãos condenados a pensar, quando muito, nas contas a vencer no mês seguinte.

Em termos da Pátria Amada, não se pode esperar ou contar com ações governamentais. É preciso que a população converse entre suas camadas sem preconceitos. As classes tidas como C e D estão emergindo economicamente. São classes que se adaptaram melhor às mudanças de mercado e fontes de renda. Fizeram por merecer e permanecer no sistema econômico brasileiro.

E como todo ganho representa uma responsabilidade, é correto pedir às classes emergentes que não abandonem a educação de suas crianças e de seus jovens, que invistam em instrução de qualidade dentro e fora do Brasil, que não cometam o mesmo erro das chamadas elites, que permitiram ver seus filhos bem formados mudarem para fora do pais. Se quiserem mudar as vidas dos seus descendentes e ajudar a fazer a história do Brasil para que sejamos uma nação “para sempre”, a chance se apresenta e é agora.

Aprender com os próprios erros e não repousar nos próprios louros.  Esses são, em termos de Brasil, os próximos passos.

João Antônio Wiegerinck

27.12.2012